30 de dezembro de 2016

Aprendizados de 2016: reconhecer privilégios

Ok, todo mundo sabe que o ano de 2016 não foi um ano fácil. Na verdade, nada fácil. Muita coisa ruim aconteceu mesmo, uma onda de conservadorismo atravessa o planeta e parece que estamos regredindo em vários pontos, mas o que nos resta fazer, senão permanecer na luta e continuar esperando um mundo melhor?

De qualquer forma, em todo final de ano sempre existe balanço de como este foi, no sentido pessoal. A gente sempre quer colocar as coisas na balança e saber se teve mais coisa boa do que ruim, se nós fizemos o que planejamos, se alcançamos nossos objetivos, o que deixamos em 2015 e o que vamos levar pra 2017. Engraçado pensar que daqui a duas semanas, esse texto completa um ano.

Fazendo o meu famoso balanceamento de 2016, cheguei à conclusão que algo com o qual eu tomei contato em 2015 se fortaleceu esse ano: a luta diária em reconhecer privilégios.

Todos os dias, pessoalmente ou na internet (principalmente na internet) a gente consegue ler UM MONTE de asneiras. Vocês já pararam pra pensar como moderadores de comentários de grandes sites como o g1 se sentem? Todos os dias lendo tantos comentários odiosos, como profissão! Eu não aguento mais do que 5 minutos.

Se a gente fala em feminicídio: "Ah, mas morrem homens todos os dias!"
Se a gente fala em homofobia: "Ah, mas héteros morrem todos os dias!"
Se a gente fala em transfobia: "Ah, mas pessoas cis morrem todos os dias!"
Se a gente fala em racismo: "Ah, mas pessoas de todas as cores morrem todos os dias!"

As frases dentro das aspas seriam respostas padrão, mas é daí pra pior. Óbvio que pessoas dentro de todos os grupos morrem todos os dias, mas a questão aqui é quando os crimes são motivados (ou característicos de) por: ser mulher, ser gay ou lésbica, ser trans ou travesti ou ser negro(a). 

E todas as reações de "ah mas isso também acontecem com as pessoas do grupo ao qual eu pertenço, mesmo que isso seja em menor escala ou talvez uma vez a cada século e nunca tenha acontecido com ninguém que eu realmente conheça" têm uma justificativa: é difícil você reconhecer que possui privilégios. Simples. É difícil e é vergonhoso, na verdade. Meu caso: sou mulher branca, estudei o ensino médio numa escola teoricamente particular, estou estudando pra tentar entrar numa faculdade pública (com muito sacrifício, mas mesmo assim, eu tenho essa oportunidade), tenho acesso à internet, à informação, tenho uma casa. Tenho muitos privilégios se comparado à uma grande parte da população brasileira, onde pouco menos DA METADE das pessoas não tem acesso à internet. (você já se imaginou sem o mínimo acesso a internet? pode ler sobre aqui, mas não leia os comentários)

Eu, Ane, não sei como uma pessoa negra se sente no Brasil. Não sei como uma pessoa da comunidade LGBT se sente ou como ela vive nesse país. Tem muita coisa que eu não sei e eu nunca vou saber, no máximo, eu posso ter uma ideia, mas isso, só se eu deixar que ela fale. 

Se uma mulher acha que é machismo, se um negro acha que é racismo e se um LGBT acha que foi homofobia/bifobia/transfobia e você, que não faz parte de nenhum desses acha que não, meu conselho é: escuta. Escuta e tenta se pôr no lugar.

Essa foi uma das coisas que eu aperfeiçoei nesse ano. Fez muito bem pra mim, e para quem nunca tentou: fica aí a dica. Tá faltando empatia nesse mundo, então vamos praticar.

Com relação a 2017, deixo aqui o mesmo trecho que deixei em 2016, não por preguiça nem nada semelhante, mas porque continua sendo perfeito pra um final de ano:

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

FELIZ 2017 para todos que leem o Ultracrepidante. Vocês são DEMAIS.



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