29 de setembro de 2016

"Vamo junta, então"




Há umas duas semanas, era aproximadamente 18h e eu estava indo para o metrô, à pé, quando escutei duas vezes uma voz que vinha dentro de um carro falando "moça, moça" e não sei por qual motivo, atendi. Era um homem, ele só me perguntou se estava perto do metrô, eu disse que sim e expliquei o caminho. Ele agradeceu e eu continuei andando, como o sinal estava fechado, o carro continuou parado por tempo suficiente para eu me arrepender de ter parado para falar com o cara. E se ele me seguisse? Pensei também que o caminho do metrô era óbvio (apesar de não ter nenhuma placa avisando, o que eu só reparei depois). Aí eu comecei a olhar muito mais pra trás do que pra frente, querendo ver se ele ainda tava parado, se ia pro metrô mesmo ou se ia tentar me acompanhar. O dia já estava escurecendo e o local não estava muito movimentado. Na terceira vez que olhei pra trás, uma moça, que me viu parando e dando informação falou "ficou com medo, né?" Respondi: "fiquei." Aí ela disse "vamo junto, então".

Nós fomos. Faltavam realmente poucos metros até chegar no metrô, e pareceu muito menos distante estando acompanhada dela.

Conversamos até lá, ela disse que do jeito que as coisas "estavam hoje" a gente tem que se preocupar mesmo. Disse que se preocupa bastante também com a filha dela e disse: "Hoje em dia as meninas mais novas já tem corpo de mulher, e gostam de usar uns shortinhos, né". Nessa frase eu percebi o quão dizer que tem muita "mulher machista" e que esse é o principal problema hoje em dia, é errado. Numa frase bem simples, ela reproduziu machismo, mas não se beneficia em nada com isso, muito pelo contrário. Ela só repetiu o que está acostumada a ouvir, e que infelizmente, é um senso comum no país, já que 1/3 dos brasileiros acha que mulher é culpada pelo estupro.

Minha mais nova amiga tinha dito ali, pra mim, uma frase com teor machista, mas em nenhum momento eu vi machismo nela. Ela, que não tem privilégio algum em ganhar menos, em sentir medo todos os dias de sofrer algum abuso (por ela e pelas filhas), que muitas vezes é objetificada, que é julgada por motivos que um homem não é, que muito provavelmente tem uma carga maior de trabalho devido às tarefas domésticas e que também não possui representação política. Ela não é machista.

E o ato de me acompanhar me lembrou a frase final do poema da Júlia Dworkin (que você pode ler clicando aqui), que é "a nossa irmandade sempre existiu". E a união entre as mulheres sempre existiu, por mais que seja esquecida e exista sempre uma rivalidade pregada ou na mídia ou nas relações sociais. Essa união muitas vezes supera esses itens e comprovadamente nos torna mais fortes.

Até agora eu não citei o nome dela, por que eu só perguntei ao nos despedirmos. O nome dela é Cleide e eu escrevo esse texto também pra te agradecer por me acompanhar, pela conversa e por me fazer manter a esperança: juntas, somos melhores.

Obrigada, Cleide.



(obs: Ela não disse que acredita que as mulheres sejam culpadas por estupro, o que quis dizer é que é senso comum no país culpabilizar a mulher de alguma forma)

2 comentários:

  1. pois é, enquanto aqui em manaus minha amiga foi roubada por duas mulheres... sororidade não existe, vc teve sorte. :)

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