6 de dezembro de 2015

RESENHA: Que Horas Ela Volta?

O blog completou 6 meses ontem (05/12) e eu nunca postei nenhuma resenha aqui, o que é no mínimo estranho. Decidi postar, então, uma resenha que escrevi já faz algum tempo, e que, se vocês correrem, ainda dá tempo de assistir no cinema.

Fonte: brasilpost

O filme "Que Horas Ela Volta?" conta a história de Val, pernambucana que vai para São Paulo trabalhar como empregada doméstica e assim fornecer o sustento à sua filha Jéssica, que ficou em Pernambuco. O desenrolar da trama começa quando, anos mais tarde, Jéssica vai morar com a mãe em São Paulo para prestar vestibular - e acaba não se comportando da maneira esperada.

Dirigido por Ana Muylaert, o filme possui sutilezas em suas cenas que conseguem cumprir seu papel: mostrar a discrepância entre Val e seus patrões, e principalmente, mostrar como suas atitudes destoam da frase: "Val, você é praticamente da família". Como na cena em que, logo após consolar Fabinho, o filho dos patrões, que Val teve grande importância em sua criação, o rapaz deixa copo e prato no corredor, para que Val os recolha lá.

Quando Jéssica chega, a garota que possui uma forte personalidade e grande senso crítico, não se "satisfaz" com a maneira como as relações estão estabelecidas; aceita tudo que lhe é oferecido e chama os patrões da mãe pelo nome (sem o "dona" ou "seu" como prefixo). São atitudes simples: comer o sorvete do Fabinho (filho dos patrões) e cair na piscina (literalmente), que causam grandes transtornos à Val, que passa a ouvir broncas da patroa. Em uma cena, Val briga com a filha dizendo que ela se acha "muito metida e melhor do que os outros", em resposta, Jéssica diz:  "Eu não me acho melhor não, só não me acho pior."

O filme mostra com propriedade os resquícios da cultura escravista no país. Ainda que hoje as empregadas domésticas recebam um salário com carteira assinada, a relação patrão-empregada ainda não foi definida corretamente. O filme nos mostra que existe uma linha tênue entre trabalho e abuso, fazendo uma ligação com a questão do achar-se superior. 

Por trás do discurso "É como se fosse da família" existe preconceito, por que quem é da família pode comer o mesmo sorvete e entrar na mesma piscina - sem a necessidade de que ela seja limpa depois. Existe um achar que a empregada é como se fosse um item da casa; ou pensar que cada pessoa deve se colocar em seu "devido lugar", isto é, suas atitudes devem condizer com o quanto você possui e de acordo com sua classe social. A filha da empregada não entra na piscina.

Bom, pra fechar o post, eu vi alguns comentários falando que o filme é um pouco de exagero. Há muito tempo, eu sigo a conta @aminhaempregada no twitter, que retuita, semanalmente tweets carregados de racismo e xenofobia, quem tiver interesse pode acessar o twitter e ter acesso à tais tweets. 

O que o filme mostra é a realidade. Vale muito a pena assistir e pensar um pouco a respeito de como algumas relações estão estabelecidas. Pensar que o pobre, o negro, o "paraíba" não precisam se colocar em seu "devido lugar".



Adendo: Queria acrescentar um comentário do meu pai, que não consegui encaixar no texto mas que queria que estivesse aqui, sobre o filme, ele disse: "até o nome é bonito." E é mesmo.


Post atualizado, 24 de janeiro de 2016 às 22h01 min

Na "versão original" do post, eu tinha pegado alguns tweets retuítados pelo twitter @aminhaempregada e "incorporado" aqui. Essa semana, uma pessoa que tinha um tweet dentre esses, entrou em contato comigo e pediu gentilmente, que eu o retirasse.

Obviamente, atendi seu pedido imediatamente, conversamos por um momento e eu cheguei à uma simples conclusão: eu errei.

Errei não por ter "pegado" os tweets, errei por não pensar que aquelas pessoas também erraram e que os tweets podem não refletir mais a opinião que essas pessoas tem hoje. Errei por que mesmo que ainda hoje tenham o mesmo pensamento, podem não ter mais amanhã, e errei, principalmente, por que eu mesma posso já ter pensado assim de alguma forma, e, se hoje não penso mais é por que desconstruí o que construíram em mim durante esses 17 anos.

Até pensei em retirar definitivamente o twitter do post, mas o foco do twitter é apenas mostrar para os seguidores quanto racismo velado existe. Além disso, a leva de tweets retuítados é bem maior do que os selecionados anteriormente para o post.

Então, é isso, a gente erra, mas corrige. É errando que se aprende, e não se ensina nada apontando o dedo.


2 comentários:

  1. Amei a resenha, parece ser um ótimo filme. Os comentários do filme são legais kkkkkk
    http://o-hyeah.blogspot.com.br/

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