20 de julho de 2015

Justiça, privilégio e meritocracia



O despertador toca. São 5h da manhã. Alice tem que levantar logo, se arrumar e tomar um café pra não sair de casa sem comer nada. Ela pega um ônibus pra ir até a estação de metrô e faz uma baldeação pra chegar na estação mais próxima da sua escola e ainda andar alguns minutos. Hoje, como deu sorte, chegou na escola alguns minutos adiantada, ainda é 6h45 e a aula só começa 7h00 - era justamente pra isso que ela saía tão cedo, sabia que o ônibus atrasava, o metrô podia quebrar.





Entra uma luz pela fresta da porta abrindo. Isabela coloca o travesseiro na cabeça, não quer acordar. Vera, a empregada, mas que é tida como da família, se aproxima dela e diz: 

- Isabela, eu já te chamei, já são 6h15 e você vai acabar se atrasando.

Relutante, Isabela levanta, veste o uniforme, come um sanduíche preparado pela Verinha, como ela a chama, e entra no carro, onde o motorista a espera para levá-la para a escola.





Camila olha o relógio: 6h50. Tá atrasada, mas vai dar tempo de deixar os irmãos na escola. Dá um beijo em cada um e sai correndo pra chegar na sua, que não é muito longe dali. Avista a entrada e percebe que vai dar tempo, o portão ainda nem abriu. Quando vai atravessar a rua, espera a ronda escolar passar, e ao olhar pra frente, percebe que não era só ela que esperava. Do outro lado da calçada, alguns alunos, como ela, estão com sprays de tinta. Camila pensa em qual espaço da parede eles vão pichar agora. Talvez em cima de outros pichês.




Isabela entra na escola e encontra Alice. Se cumprimentam com um beijinho e vão juntas pra sala. As duas são muito amigas e se conhecem desde criancinhas, afinal, Vera é a mãe de Alice. É graças à mãe de Isabela que Alice estuda numa escola particular, já que foi ela quem falou com o diretor para ceder uma bolsa durante o ensino fundamental II. Alice não estava aprendendo muita coisa na sua antiga escola, pública. Mas se hoje ela permanece na escola, é mérito totalmente dela, pois conseguiu através de prova, uma bolsa integral pro ensino médio.

No fim do dia, elas se despedem. Isabela vai para a academia, e Alice corre pra ir trabalhar na lanchonete da tia, o único lugar onde ela teria tempo suficiente pra estudar - e conseguir manter a bolsa.





Camila sai da escola mais cedo - faltaram dois professores. Aproveita o tempo que sobra pra arrumar a bagunça em casa, antes de ir buscar os irmãos e levá-los para seu trabalho, onde é garçonete. Foi sua vizinha e amiga, Alice, quem conseguiu esse trabalho pra ela, onde ela pode deixar os irmãos brincando no fundo, já que sua mãe passa o dia inteiro fora trabalhando.

Quando chega, cumprimenta a amiga com um abraço. As duas estudaram por pouco tempo juntas quando crianças, mas em nada mudou a amizade. Pelo contrário, dividem tudo: segredos, desejos, medos e sonhos.

Mais tarde, quando a lanchonete fica mais vazia, Alice entra no assunto faculdade. Ela sonha em fazer medicina, e quer entrar numa faculdade pública. Quer e precisa, pois não tem como pagar uma faculdade tão cara. Camila a conforta dizendo que com certeza consegue. "Você não é uma burra que nem eu". Alice ri e diz que Camila não é burra e ela não é tão inteligente assim. Pensa que provavelmente vai precisar de um cursinho.

- Eu não sei por que fui querer algo tão caro de se fazer.
- Toda graduação é cara, Alice. Mas cê consegue, e, além disso, é pra isso que cê tem vocação.
- Assim como você ainda vai fazer direito, né?
- Ah, claro...

Alice olha feio pra Camila, mas as duas sabem que as chances de Camila entrar numa faculdade pública pra cursar direito são pequenas. Depois que seu pai foi embora sem nunca mais dar notícias, ela e a mãe enfrentaram o diabo pra conseguirem sustentarem-se. Só recentemente conseguiram se estabilizar, mas ainda dando muito duro. Ou seja, não sobrou tempo pra Camila se dedicar aos estudos, e é difícil conseguir vaga numa faculdade pública.
Porém, ambas não deixam de sonhar.



Luciana, a mãe de Isabela, está esperando a filha na saída da academia. Elas vão passar no shopping pra comprar "umas besteirinhas". No carro, Luciana pergunta se Isabela já escolheu onde vai fazer intercâmbio. A filha pede mais tempo pra pensar. São tantos lugares.





Novembro chega rapidamente e com ele o vestibular. Vestibular vira o único assunto de Alice, que até já cochilou na sala algumas vezes, mas na verdade, não se importa muito, já que está no fim do ensino médio. Ela quer entrar na faculdade agora, tá com o conteúdo da escola ainda "fresco" e não tá a fim de fazer cursinho. Um dia, ao tocar (mais uma vez) no assunto "faculdade" com Isabela, ela tenta consolar Alice dizendo que pra ela é mais fácil, afinal, ela tem a porcentagem na nota das cotas raciais. Enquanto isso, Isabela ainda não sabe onde vai fazer intercâmbio.






E chega a formatura.
Camila se formou na escola onde estudou desde o primeiro ano do ensino fundamental. Nunca repetiu, sempre fez os trabalhos e as provas. Mas nem se deu ao trabalho de prestar algum vestibular. Tinha 90% de certeza que não passaria. Além disso, é um gasto e tanto com as inscrições para as provas. Mas espera que seja diferente com os seus irmãos.

Isabela passou na prova pra cursar direito numa faculdade particular. E já decidiu: no 3º semestre, vai fazer intercâmbio no Canadá.

Alice estava radiante! Se esforçou, estudou pra caramba, mas quase não passou. Senão fossem as cotas raciais, não teria passado. Mas conseguiu. Se sentia uma vencedora por isso. E era. Agora só falta saber como comprar todos os livros, mas ela se vira.

O que Alice não entende, nem eu é: como alguém pode achar que cotas para estudantes negros ou de escola pública seria um privilégio? Será que uma porcentagem a mais na nota de uma prova ou um espaço (pequeno) dedicado à essas minorias seria mesmo privilégio? Uma das definições de privilégio, segundo o Dicionário, é: riqueza, conforto, bem material ou espiritual a que só uma minoria tem acesso. Com certeza, não é isso que esses estudantes têm.

Camila queria fazer direito, e Isabela também. Quem conseguiu isso com mais facilidade? (ou melhor: Quem conseguiu?)

Nós não somos iguais. Existe uma camada da sociedade que enfrenta muito mais coisas para chegar no mesmo ponto que outra (é a chamada meritocracia). E eu não consigo entender como medidas sociais, por exemplo as cotas, são vistas como injustas.

Acho que o sentido de "injusto" se perdeu no meio do caminho. E o de privilégio também.

Eu imagino as medidas sociais como degraus. As pessoas que precisam dessas medidas estão com espaços vazios na escada. As medidas sociais tentam (e devem) preencher esses espaços o máximo possível. Pra que todos consigam chegar no segundo andar. Nós não somos iguais, mas ninguém é melhor que ninguém.

Não acredito e não gosto desse conceito de "igualdade". Isso é utopia. Somos diferentes, somos mulheres, homens, gays, héteros, trans, cis, negros, brancos, loiros, morenos, ruivos, indígenas, albinos, entre TANTOS outros. 

Nós somos diferentes e equivalentes. E nisso, eu acredito.


Ane Cristina


Queria saber a opinião de vocês: São contra ou a favor das medidas sociais, como cotas, bolsa família? Ou não tem opinião? E principalmente: esse texto te ajudou a refletir? Quero saber MESMO! (pode comentar em anônimo) é isso, bjo <3

4 comentários:

  1. Não gosto muito de falar sobre esse assunto (entre outras polêmicas), porque são realmente situações delicadas. Mas mesmo assim, eu queria deixar registrado aqui que seu texto me fez refletir sobre o fato do esforço das pessoas ser mascarado pelas cotas. Julgamos tão fácil que "fulano só entrou porque tem cota", mas esquecemos de pensar nas dificuldades encontradas pelo caminho daquela pessoa e principalmente na força de vontade e na sua luta para conquistar o seu espaço numa sociedade tão opressora e preconceituosa.

    Parabéns pelo texto!! Continue mandando bem assim! ❤️

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    1. SIM, e o que eu penso é (fazendo uma analogia meio meia boca), enquanto têm pessoas com degraus a menos na escada, há outras que vão de elevador, sabe? Isso que é injusto, e não cotas, entre outras medidas sociais..

      Muito obrigada ♥

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  2. Vou contar minha historia, ela e um exemplo de porque em ALGUNS casos a cota racial pode ser vista de forma negativa.
    Minha mãe tem a pele branca enquanto meu pai negra, por causa disso eu nasci negro e minha irma um moreno bem claro(praticamente branca).
    Sempre estudamos juntos, fomos colegas de sala até a 8° serie, quando ela fez 14 anos começou a trabalhar como dama de companhia, ela chegava no serviço as 18h e saia as 6h, ela ia direto pra escola,a distancia era de 8Km de casa ao serviço e de 6km do serviço para escola, percurso que ela fazia de bicicleta todos os dias.
    Quando estava prestes a terminar o ensino superior, ambos fizemos o ENEM, e ambos conseguimos bolsas integrais, ela para direito e eu para contabilidade.
    Porem passamos para faculdades particulares e não para a tão sonhada federal, so que com a minha nota eu ainda passaria mas minha irmã não, apesar de sermos filhos dos mesmos pais, temos frequentado a mesma escola, eu nasci com a pela mais escura que a dela, logo somente eu seria capaz de usar as cotas para negros.
    Neste ponto ouve um conflito, nossas notas foram semelhantes, porém o esforço dela foi superior ao meu, quem realmente "merecia" a bolsa? neste caso eu, simplesmente por ser negro!


    Como você deve ter imaginado isso não e real, mas será que esta tão distante da realidade?
    Em muitas vezes a nota de corte para cotista são menores e isto e visto como injusto por muitos "http://g1.globo.com/educacao/noticia/2014/03/em-90-dos-cursos-do-sisu-negros-tem-nota-de-corte-menor-entre-cotistas.html".
    A aprovação da cota e mais arbitraria, por exemplo uma pessoa "leite com café", "moreno claro" pode ser branca ou negra dependendo de onde estiver, caso esteja na Africa ele vai ser considerado branco, se estiver na Alemanha vai ser considerado negro e isso também pode trazer injustiças.
    Tendo o Brasil com uma extensão territorial tão grande e uma enorme diversidade de raça, isso e fácil de acontecer, duvida? "http://g1.globo.com/Noticias/Vestibular/0,,MUL43786-5604-619,00.html"


    O papel da cota e bem claro, equiparar o poder de disputa de diferentes, dando "vantagem" para quem já nasceu em "desvantagem"para corrigir a falha meritocracia implantada no Brasil, mas assim como qualquer outro método pode ter injustiças.

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    1. Nossa migo eu aqui lendo sua história toda...... Com relação às cotas eu sei que pode ser falho até pq é uma saída emergencial, na verdade o correto é passar a investir de verdade na educação pública para que as cotas não sejam necessárias. Na realidade a gente sabe que esse tipo de injustiça que você comentou até PODE acontecer, mas é bem raro, não é verdade? Na verdade, na história que você postou a irmã poderia também ter direito à cotas, "quase branca" não é branco, e fica difícil opinar numa história hipotética, MAS se fosse verdade, com as cotas o irmão passaria e ela (teoricamente) não. Sem cotas, nem isso.

      De qualquer maneira entendo sua posição, é um assunto bem delicado mesmo, gostaria de que alguém que passasse realmente por tal realidade opinasse aqui, já que não é o nosso caso.

      Bjo

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