29 de junho de 2015

Você é o que você veste?



Daniel desde criança era taxado como metido. Era algo que estava impregnado na essência do seu ser. Aquele nariz empinado, você sentia a superioridade (que ele achava que tinha) pelo jeito de falar, de andar.

As pessoas percebiam e comentavam: "Danielzinho é metido", mas Daniel não se achava melhor que ninguém. Ele só sabia que tinha um gosto melhor, que era mais inteligente e mais bonito.

Mas apesar de tudo isso, Daniel era pobre. Desses que tem o suficiente. Daniel não gostava de estudar, sempre foi do fundão, da zoeira. Não conjuga nenhum verbo corretamente mas isso não muda o fato de que ele é mais inteligente do que você, do que eu, do que todos nós.

Com toda essa confiança, uma coisa que Daniel não teve dificuldade foi em fazer amigos. Tem muitos. Todo fim de semana sai com eles, garante a foto pro facebook, pro instagram, pra mostrar pra todo mundo como sua vida é boa. "Amigos" é quase um insulto, o que Daniel têm são irmãos. E, sabemos que, geralmente irmãos são parecidos. Mas Daniel tem uns irmãos que deram mais sorte na vida e ganham de mesada quase metade do que o pai de Daniel ganha num mês.

Na época em que todos os meninos clamavam "Justin Biba!", Daniel era diferente. Ele admirava todos os caras que eram famosos, ricos, podiam gastar, esbanja, ostentar. Tudo que ele sempre sonhou.

E foi assim que Daniel começou a se confundir. Passou a querer andar bem vestido, mas quando digo bem vestido, não basta ser bonito, tem que ter marca. Nessa confusão, Daniel esqueceu que a roupa, o tênis, o boné, foram feitos para nós vestirmos. Não é a roupa que veste a gente.

Mas estranhamente, Daniel esqueceu disso. E passou a almejar ser o cara que usaria aquele tênis, aquele boné. Esqueceu que o importante era ser um cara preenchido de coisas boas por dentro. E não alguém superficial, coberto de coisas caras.

Perdido nessa confusão, acabou tratando muito mal pessoas que se importavam com ele de verdade. Honestamente, não agregariam nada à sua imagem.

Comentaram com a mãe de Daniel "Ele inverteu os valores". Ela não entendeu muito bem. Apesar de aprontar ás vezes, ele era um bom filho. Tudo bem que, se fosse comparar, os outros meninos pareciam ser mais dedicados, mas ela sabia que comparações não traziam melhorias.

Os irmãos de Daniel que tinham melhores condições já estavam na faculdade, mas ele ainda estava terminando o 4º ano do ensino médio. Sabia que foi vacilo ter repetido por falta, mas agora era tarde. Daniel percebeu que não estava muito inserido no assunto atual dos seus irmãos, mas eles estavam em fases diferentes. Tinha consciência que, independente disso, nada mudaria entre eles.

Porém, foram se afastando. Um dia, numa conversa por mensagem com um de seus irmãos, descobriu que eles iam sair sem ele. Leu uma mensagem que basicamente dizia "Eu até te chamaria, cara, mas acho que não faz muito seu estilo". O triste é que o que Daniel mais sentia falta era das curtidas que ganhava quando postava foto com seus irmãos.

Passado um tempo, Daniel precisou de uma blusa de frio e comprou numa loja de departamento. Quando sua mãe viu a blusa, estranhou: não era de marca. Ela tinha percebido que o filho andava diferente, meio desanimado. Perguntou até por pessoas que já não falava e nem via há muito tempo.

Assim, a confusão se desfez. Daniel lembrou que era ele quem vestia a roupa. Mas só quando já não tinha pra quem mostrar. Quando ficou sozinho, percebeu que o valor de tudo que ele comprou era mais alto do que imaginava, e ainda assim, não valia nada. Trouxe um status no momento, mas depois, ele se tornava dependente daquilo para passar a imagem que precisava passar.

Atualmente, ao se questionar, Daniel pensa: Mas que imagem era essa? E pra quem ele precisava passar?

Rapidamente, ele lembra os motivos: A imagem de um cara legal, para pessoas tão superficiais quanto ele se tornou.

Mas por quê ele precisava passar?

Hoje, Daniel não sabe responder.



“Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações terá sido mera coincidência”.


2 comentários:

  1. Incrível como esse Daniel é semelhante com tantas pessoas, não é mesmo? Sério, é tão exaustivo lidar com esse tipo de pessoa, que agrega mais valores a pedaços de pano ( que querendo ou não, só se diferencia do resto porque tem um nome especial) do que sua própria essência. Suas roupas não dizem quem você é, elas lhe transformam, mudam sua cabeça e te fazem acreditar ser outro alguém. Será que um dia as pessoas vão acordar como o Daniel acordou?

    xx
    www.eternaaprendiz.com

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