13 de abril de 2017

Me deixa falar

Depois de 4 meses sem nenhum texto, eu reapareci. Não sei exatamente o que culpar por um período tão longo de ausência, mas... o ultracrepidante vive! Um dia eu faço um post explicando o atual momento da minha vida.

Desde 2013 eu leio sobre a causa feminista, de lá pra cá é engraçado pensar o quanto eu mudei e ainda pensar que mudei depois de ter mudado. O que quero dizer é que já mudei de posição dentro do movimento feminista, mesmo. Isso é pauta pra outro texto, o que quero resgatar com o fato de já ter lido várias publicações/posts/etc. é que um dia eu me deparei com o termo manterrupting e à primeira leitura, talvez não fique tão claro o significado disso. Mas é só começar a reparar. Eles não me deixam falar.

Manterrupting é um termo inglês, man de homem e interrupting de interrupção, o que, numa tradução livre, pode ser entendido como "homens que interrompem". Isso acontece quando uma mulher está tentando falar, mas mal consegue concluir a frase porque um homem a interrompe. A todo momento.


No vídeo abaixo dá pra identificar a prática. O atual presidente dos EUA não conseguiu se conter e interrompeu a adversária um monte de vezes. 


Não que ele seja o melhor exemplo de educação com qualquer pessoa, mas o manterrupting é nítido, nesse vídeo.

O manterrupting é um exemplo das consequências quase invisíveis do machismo enraizado na sociedade. É difícil FALAR. O que mais me doi é que nessas interrupções os comentários não acrescentam em nada. É só pra falar, mesmo. Só pra te interromper e mostrar que talvez o irrelevante que ele tem a dizer, seja mais importante do que o relevante que você vai falar. A parte pior é se dar conta que por mais tosco que seja, ele ainda vai ser ouvido. Eu vou?

Já foram várias as situações na minha vida em que eu soube que se, fosse homem, teria mais credibilidade. Ao dar opiniões. Em me posicionar. Ou em todas as vezes em que um homem repetiu um pouco mais alto o que eu tinha dito anteriormente e levou todo o crédito. E todo mundo riu muito mais ou levou muito mais a sério do que quando eu falei. É a minha altura? Meu tom de voz? Queria acreditar que é, mas no fundo, eu sei que não.

São pequenas atitudes que fazem com que a gente se sinta pequena, sem muita significância, sem nada a acrescentar. Mas eu tenho. É só você me deixar falar.


30 de dezembro de 2016

Aprendizados de 2016: reconhecer privilégios

Ok, todo mundo sabe que o ano de 2016 não foi um ano fácil. Na verdade, nada fácil. Muita coisa ruim aconteceu mesmo, uma onda de conservadorismo atravessa o planeta e parece que estamos regredindo em vários pontos, mas o que nos resta fazer, senão permanecer na luta e continuar esperando um mundo melhor?

De qualquer forma, em todo final de ano sempre existe balanço de como este foi, no sentido pessoal. A gente sempre quer colocar as coisas na balança e saber se teve mais coisa boa do que ruim, se nós fizemos o que planejamos, se alcançamos nossos objetivos, o que deixamos em 2015 e o que vamos levar pra 2017. Engraçado pensar que daqui a duas semanas, esse texto completa um ano.

Fazendo o meu famoso balanceamento de 2016, cheguei à conclusão que algo com o qual eu tomei contato em 2015 se fortaleceu esse ano: a luta diária em reconhecer privilégios.

Todos os dias, pessoalmente ou na internet (principalmente na internet) a gente consegue ler UM MONTE de asneiras. Vocês já pararam pra pensar como moderadores de comentários de grandes sites como o g1 se sentem? Todos os dias lendo tantos comentários odiosos, como profissão! Eu não aguento mais do que 5 minutos.

Se a gente fala em feminicídio: "Ah, mas morrem homens todos os dias!"
Se a gente fala em homofobia: "Ah, mas héteros morrem todos os dias!"
Se a gente fala em transfobia: "Ah, mas pessoas cis morrem todos os dias!"
Se a gente fala em racismo: "Ah, mas pessoas de todas as cores morrem todos os dias!"

As frases dentro das aspas seriam respostas padrão, mas é daí pra pior. Óbvio que pessoas dentro de todos os grupos morrem todos os dias, mas a questão aqui é quando os crimes são motivados (ou característicos de) por: ser mulher, ser gay ou lésbica, ser trans ou travesti ou ser negro(a). 

E todas as reações de "ah mas isso também acontecem com as pessoas do grupo ao qual eu pertenço, mesmo que isso seja em menor escala ou talvez uma vez a cada século e nunca tenha acontecido com ninguém que eu realmente conheça" têm uma justificativa: é difícil você reconhecer que possui privilégios. Simples. É difícil e é vergonhoso, na verdade. Meu caso: sou mulher branca, estudei o ensino médio numa escola teoricamente particular, estou estudando pra tentar entrar numa faculdade pública (com muito sacrifício, mas mesmo assim, eu tenho essa oportunidade), tenho acesso à internet, à informação, tenho uma casa. Tenho muitos privilégios se comparado à uma grande parte da população brasileira, onde pouco menos DA METADE das pessoas não tem acesso à internet. (você já se imaginou sem o mínimo acesso a internet? pode ler sobre aqui, mas não leia os comentários)

Eu, Ane, não sei como uma pessoa negra se sente no Brasil. Não sei como uma pessoa da comunidade LGBT se sente ou como ela vive nesse país. Tem muita coisa que eu não sei e eu nunca vou saber, no máximo, eu posso ter uma ideia, mas isso, só se eu deixar que ela fale. 

Se uma mulher acha que é machismo, se um negro acha que é racismo e se um LGBT acha que foi homofobia/bifobia/transfobia e você, que não faz parte de nenhum desses acha que não, meu conselho é: escuta. Escuta e tenta se pôr no lugar.

Essa foi uma das coisas que eu aperfeiçoei nesse ano. Fez muito bem pra mim, e para quem nunca tentou: fica aí a dica. Tá faltando empatia nesse mundo, então vamos praticar.

Com relação a 2017, deixo aqui o mesmo trecho que deixei em 2016, não por preguiça nem nada semelhante, mas porque continua sendo perfeito pra um final de ano:

Para ganhar um Ano Novo 
que mereça este nome, 
você, meu caro, tem de merecê-lo, 
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 
mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.


Carlos Drummond de Andrade

FELIZ 2017 para todos que leem o Ultracrepidante. Vocês são DEMAIS.



24 de novembro de 2016

O cara que matou o filho estourou a minha bolha

Se tudo der certo e eu conseguir seguir carreira jornalistica, vou sofrer com um problema muito sério. Muitas vezes eu não consigo formular um pensamento coerente sobre alguma coisa assim que acontece, e é isso que o jornalista deve fazer (claro, digo isso se for para escrever crônicas ou qualquer coisa parecida com as que eu escrevo aqui, afinal, em notícia não se coloca opinião. Talvez outra coisa com a qual eu vou sofrer).

Na semana passada, no dia 15, um senhor de 60 anos, chamado Alexandre, matou o filho, Guilherme, por "divergências políticas" e depois, se matou.

Fonte: G1

Eu demorei bastante pra assimilar essa notícia por que um pai matou o filho por não "aceitar o envolvimento do filho em movimentos sociais" (segundo o site do G1). Nunca é fácil você assimilar qualquer notícia de assassinato, mas, infelizmente, algumas situações são corriqueiras. Você nem dá mais atenção, mesmo que sejam vidas e mesmo que todas as vidas tenham o mesmo valor. Mas aí, um pai mata um filho por discordar da forma como o filho dele PENSA. 

E pra piorar todo o contexto e deixar tudo mais difícil de digerir, segundo testemunhas, ele disparou contra o filho, que, mesmo ferido, conseguiu fugir. Ele perseguiu o filho, de carro, e efetuou mais disparos, foi então que o Guilherme acabou morrendo no local. Em seguida, Alexandre se matou.

Depois de ler essa notícia (e alguns comentários no post) aí sim, a bolha em que eu vivo estourou de vez. No facebook, no twitter, nas redes sociais de uma forma geral, e nas relações sociais, a gente se cerca de pessoas que pensam como nós. (Ao menos, geralmente).

Querendo ou não, o que eu leio vem de pessoas que tem o pensamento inclinado com o meu, os posts, as piadas, os memes, quase 90% das coisas que eu sigo e dos meus amigos pensam de uma forma bem parecida com a minha. Quando eu vejo algo que bate de frente com meus ideais, penso: "O que é isso, como alguém pode pensar assim?" e é como se aquele pensamento que diverge do meu fosse o diferentão. Essas mortes me fizeram ver que na verdade, não.

Não existe algo que seja O DIFERENTE, porque estamos totalmente polarizados. Cada um tomando a sua posição. O que quero dizer com isso é que a pessoa que pensa diferente de mim existe, mas ela só é diferente de mim, existem várias pessoas que pensam da mesma maneira que ela. E, honestamente, não acho que tomar uma posição e ter uma opinião formada seja ruim, isso nunca matou ninguém. Mas o extremismo mata, e é ele que me assusta.

Fora dessa bolha eu consigo enxergar muitas coisas que antes estavam melhor mascaradas. O perigo está em começar a achar que quem pensa diferente de você é um alien, é com isso que devemos tomar cuidado. 

Esse tempo de polarização extrema me assusta. A liberdade de pensar e a liberdade de agir (quando este não machuca/ofende/humilha ninguém) deve ser respeitada.


Somos nós que tomamos as nossas posições, e não as posições que tomam a gente. 




Links para ler sobre o caso: aqui e aqui.

29 de setembro de 2016

"Vamo junta, então"




Há umas duas semanas, era aproximadamente 18h e eu estava indo para o metrô, à pé, quando escutei duas vezes uma voz que vinha dentro de um carro falando "moça, moça" e não sei por qual motivo, atendi. Era um homem, ele só me perguntou se estava perto do metrô, eu disse que sim e expliquei o caminho. Ele agradeceu e eu continuei andando, como o sinal estava fechado, o carro continuou parado por tempo suficiente para eu me arrepender de ter parado para falar com o cara. E se ele me seguisse? Pensei também que o caminho do metrô era óbvio (apesar de não ter nenhuma placa avisando, o que eu só reparei depois). Aí eu comecei a olhar muito mais pra trás do que pra frente, querendo ver se ele ainda tava parado, se ia pro metrô mesmo ou se ia tentar me acompanhar. O dia já estava escurecendo e o local não estava muito movimentado. Na terceira vez que olhei pra trás, uma moça, que me viu parando e dando informação falou "ficou com medo, né?" Respondi: "fiquei." Aí ela disse "vamo junto, então".

Nós fomos. Faltavam realmente poucos metros até chegar no metrô, e pareceu muito menos distante estando acompanhada dela.

Conversamos até lá, ela disse que do jeito que as coisas "estavam hoje" a gente tem que se preocupar mesmo. Disse que se preocupa bastante também com a filha dela e disse: "Hoje em dia as meninas mais novas já tem corpo de mulher, e gostam de usar uns shortinhos, né". Nessa frase eu percebi o quão dizer que tem muita "mulher machista" e que esse é o principal problema hoje em dia, é errado. Numa frase bem simples, ela reproduziu machismo, mas não se beneficia em nada com isso, muito pelo contrário. Ela só repetiu o que está acostumada a ouvir, e que infelizmente, é um senso comum no país, já que 1/3 dos brasileiros acha que mulher é culpada pelo estupro.

Minha mais nova amiga tinha dito ali, pra mim, uma frase com teor machista, mas em nenhum momento eu vi machismo nela. Ela, que não tem privilégio algum em ganhar menos, em sentir medo todos os dias de sofrer algum abuso (por ela e pelas filhas), que muitas vezes é objetificada, que é julgada por motivos que um homem não é, que muito provavelmente tem uma carga maior de trabalho devido às tarefas domésticas e que também não possui representação política. Ela não é machista.

E o ato de me acompanhar me lembrou a frase final do poema da Júlia Dworkin (que você pode ler clicando aqui), que é "a nossa irmandade sempre existiu". E a união entre as mulheres sempre existiu, por mais que seja esquecida e exista sempre uma rivalidade pregada ou na mídia ou nas relações sociais. Essa união muitas vezes supera esses itens e comprovadamente nos torna mais fortes.

Até agora eu não citei o nome dela, por que eu só perguntei ao nos despedirmos. O nome dela é Cleide e eu escrevo esse texto também pra te agradecer por me acompanhar, pela conversa e por me fazer manter a esperança: juntas, somos melhores.

Obrigada, Cleide.



(obs: Ela não disse que acredita que as mulheres sejam culpadas por estupro, o que quis dizer é que é senso comum no país culpabilizar a mulher de alguma forma)

Um post sem grandes propósitos

Só pra pedir desculpa pelo sumiço. Em maio eu avisei aqui que ia sumir, mas até que não sumi tanto. Depois, teve esse texto pra vocês sentirem o tanto que vestibular desgraça a cabeça. Pra ajudar, eu começo a escrever as coisas e não termino, essa é a quantidade de posts em rascunho:

Porque eu começo a escrever e acho que fica ruim, ou acaba a inspiração, ou a ideia. Ou eu termino o texto e não tenho coragem de postar por que não tem sentido algum. Vários motivos (ou não). 

Mas estou sempre dando uma olhada e ficando contente de ver que o Ultracrepidante continua tendo acesso todo dia, mesmo que seja por umas pesquisas meio estranhas no google que fazem as pessoas cair aqui. Enfim: post sem propósito algum, né? (Sim, os outros tem propósitos!!) Desculpa quem perdeu tempo lendo, mas também, se você leu isso aqui, não ia gastar seu tempo fazendo grande coisa, né. Mas se ia, desculpa de novo. E obrigada por perder tempo comigo ☺

15 de julho de 2016

O feminismo não é só sobre você

Eu acredito fielmente que nós somos o que somos ensinados a ser. Portanto, a não ser que você já tenha crescido numa família com ideais feministas e também durante a sua formação como individuo(a) não esteve em contato com conceitos machistas (o que é muito difícil) você absorveu o machismo e também reproduziu. Isso vai acontecer, e para parar de reproduzir machismo e qualquer tipo de preconceito, só buscando duas coisas: informação e desconstrução de tais ideais.

Mas esse texto nem é sobre as pessoas que não fazem a mínima ideia do que seria o movimento feminista, tampouco para quem "faz alguma ideia" e mesmo assim julga o feminismo como desnecessário ou como "o contrário de machismo". Na verdade, esse texto é direcionado essencialmente para as mulheres que já conhecem o feminismo, se declaram feministas, mas suas ações acabam destoando do que o movimento se propõe.



Isso mesmo.

Antes de mais nada, não quero me auto-afirmar como perita no assunto. Mas, se eu tô escrevendo esse texto é porque acredito saber algo sobre. Então, vamos lá: o feminismo tem como objetivo equiparar a mulher ao homem na sociedade, reduzindo (e num futuro utópico, mas que eu acredito)/acabando com as diferenças sociais, políticas e econômicas entre homens e mulheres. E todo esse processo exige empoderamento feminino, algo do tipo de mostrar a mulher que ela é tão capaz quanto, e que ela pode fazer as mesmas coisas que um homem faz, sem ser julgada de uma forma diferente da qual um homem seria. 

Exemplo básico: Um homem que fica com muitas mulheres é pegador, mulher que fica com vários homens não recebe o mesmo título. Por que não? A resposta para isso vocês já sabem.

Mas como eu já havia dito, o foco desse texto é outro. 

A impressão que tenho é que nós temos o feminismo numa espécie de bolha. Dentro dela estamos nós e nossas amigas. Mulheres que estão fora desse campo, não entram.

Digo isso porque vejo muita mulher empoderando amiga e tomando as rédeas sobre seu corpo e sobre suas decisões, mas esquecendo que a outra mulher que ela mal conhece compartilha de todos os preconceitos, angústias e medos que ela também possui. 

E é fácil de perceber isso: quando você vê uma desconhecida e cochicha com sua amiga sobre a aparência/roupa dela, quando você julga uma mulher que você não conhece ou conhece e talvez não gosta por atitudes que você não julgaria a si própria e nem a uma amiga. Quando você vê uma mulher falando asneiras sobre feminismo e a julga como otária sendo que pensava da mesma forma antes de se desconstruir. Um exemplo muito simples disso foi quando Anitta e Pitty foram no programa Altas Horas, na Globo e tiveram uma pequena discussão sobre direitos feministas e TODO mundo caiu em cima da Anitta, no melhor estilo "olha lá, que burra" ou "Pitty rainha, Anitta nadinha". Sobraram memes nesse estilo:


Mas faltou sororidade! Faltou perceber que sim, a Anitta estava reproduzindo machismo. Mas ela não ganha nada com isso e a gente muito menos em julgar.

O que ainda falta é se colocar no lugar da outra mesmo que você não a conheça. Realmente, olhar como uma igual, como alguém que passa o mesmo que você, todos os dias.

Eu ainda poderia inserir nesse contexto a diferença entre as classes e como isso agrava ainda mais essas diferenças, e de como as mulheres pobres e negras sofrem AINDA mais com isso, mas isso seria assunto para outro texto e quem sabe até para outra pessoa escrever, alguém com uma vivência maior nesse contexto.

O que quero deixar como verdadeira sugestão é: olhe as outras mulheres como você olha para você. Não rebaixe uma mulher, nem a companhia de uma mulher, (ainda vejo gente dizendo que amizade entre homem e mulher é melhor ZzzZz) É claro que se alguma mina fez coisas ruins para você, você não precisa ficar sendo amiguinha dela "em nome do feminismo". Mas num sentido geral nós temos e precisamos nos unir.

Porque se a gente não se ajudar, ninguém vai.





3 de julho de 2016

Eu odeio o vestibular

Texto com fins de desabafo.

Eu sei que eu não sou a única, aliás, eu tenho certeza. Converso com meus amigos que fazem curso pré-vestibular e o sentimento é unânime. Os estudantes odeiam o vestibular. Quem inventou essas provas, quem ganha com isso?

Sim, todo mundo sabe que existe faculdade particular. Mas o principal problema é não ter dinheiro pra pagar uma faculdade particular boa e consequentemente cara e também não querer se dedicar uma média de cinco anos num curso superior para depois o famigerado mercado de trabalho não aceitar seu currículo por ter cursado uma faculdade sem "nome". Aliás, como isso me irrita: não é levado em conta o esforço da pessoa, nem sua dedicação, nem sua habilidade pra área que escolheu. O que importa é se a instituição tem nome ou não. E as que tem nome são as que tem mensalidades altíssimas, engraçado, não?

A pior parte é essa que descrevo agora: as faculdades públicas, que são as que deveriam acolher esses estudantes que não possuem condições de pagar mensalidades tão caras, estão lotadas de alunos de alta renda. E aí aparece essa prova que eu odeio tanto: o vestibular, com notas de corte altíssimas, competindo com alunos que estudaram a vida toda nas melhores escolas particulares e ao concluir o ensino médio fizeram um ano de cursinho integral. 

As chances de passar são tão pequenas, a vontade de estudar se esvai a cada semana. Conciliar trabalho e cursinho é um absurdo de difícil e os sentimentos mais constantes são o de estar jogando dinheiro fora e o de "eu não vou passar".

E aí aparecem algumas pessoas que são de origem humilde, mas com muito esforço conseguiram passar na faculdade, e o que acontece? O discurso meritocrático se fortalece. Do tipo: "tá vendo, é só se esforçar que consegue". O erro aqui é querer usar a exceção como regra.


Matéria da Uol, que nos apresenta o perfil dos aprovados no ano passado. "Segundo o balanço, a maioria dos matriculados é homem (57,7%), fez cursinho pré-vestibular (57,9%) e tem renda familiar igual ou maior que 5 salários mínimos (64,4%). A maior parcela dos matriculados não trabalha (78,1%) e pretende ter ajuda dos recursos dos pais para manter os estudos universitários (64,6%)."

Ainda escutei esses dias que manter o nível alto é bom porque seleciona quem realmente tem vontade de fazer o curso. Seguindo essa lógica, só gente branca e de alta renda tem vontade de fazer a faculdade pública.

Eu sei que esse texto aqui não vai mudar muita coisa, mas queria apenas deixar registrado a minha percepção do quão falho é esse sistema. Selecionando o aluno por algo tão impalpável, e algumas vezes até sem lógica, por exemplo: tendo que decorar todas as fórmulas difíceis de física (e muitas vezes esquecendo o conceito) sendo que no curso que quero fazer essa matéria passa longe da grade curricular. 

Estudar 14h e dormir 2h por dia como alguns aprovados de medicina fazem, não é normal. Não é mérito por esforço. É transformar um jovem estudante num robô, numa pessoa frustrada, quando a única coisa que a gente quer é cursar o ensino superior e poder, de alguma forma, mostrar nosso potencial. Mas o caminho até entrar na faculdade já é um choque de realidade tão forte que traz um sentimento profundo de "que potencial?" 

Eu odeio o vestibular.



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